domingo, 12 de julho de 2009

LoKi - Arnaldo Baptista


“Eu quis me libertar” – assim declarou Arnaldo Dias Baptista, quando tentou suicídio em 1982 numa clínica em São Paulo. Os Mutantes, para Rogério Duprat, aparecem como a banda mais importante do movimento tropicalista. O fim dos Mutantes e o recomeço. Kurt Cobain escreve uma carta para Arnaldo em 1993. Beatles, Rolling Stones? “Eles não têm uma cantora” – diz Arnaldo irônico. “Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?”. Uma história de amor. Rita Lee, onde está você? Rita Lee pra quê?

Por L.B. Laika

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Mente libertária, visionário, músico, artista, romântico, risonho, irônico, viciado, louco. Louco. Louco? Bom, isso é o que diria a imprensa no final dos anos 70 sobre um dos maiores ícones do rock nacional. Arnaldo Baptista teve uma carreira conturbada, cheia de realizações, decepções e disco voadores. Sorriu, criou, brincou, cantou, chorou, sobrevive e nos conta estórias. Loki – documentário de Paulo Henrique Fontenelle – vem a resgatar o que há de mais intrigante na vida de Arnaldo e na carreira de uma das bandas de rock mais ousadas do mundo em termos de sonoridade: Os Mutantes.

Impossível nunca ter ouvido falar dos antigos festivais da Record que passavam na TV ou mesmo tê-los visto. Ali nascia grande parte da música nacional. Ali se criava identidade. Ali nascia o movimento tropicalista quando Gil e Caetano decidiram colocar bandas de rock para lhes acompanhar. Os Mutantes tocaram com a orquestra de Rogério Duprat e Gil, na canção “Domingo no Parque”, em 1967. A partir de então, o experimentalismo e a reviravolta na música estava feita. Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias quebravam paradigmas, subiam alto ao misturar tantos estilos numa só música, ganhavam espaço na mídia e transformavam de vez o rock nacional. A diferença estava tanto na música, como nas roupas, nas letras e no comportamento dos três jovens. Nas imagens, Arnaldo Baptista, com seu contrabaixo, sempre sorrindo, tomava frente da banda. A instrumentação, a base das músicas, as letras, o próprio jeito mutantes de ser, vinha da frutífera parceria de Rita e Arnaldo.



O filme-documentário do Canal Brasil consta com muitas imagens de arquivo: são apresentações fora do país, festivais nacionais e fotos, além de uma ótima trilha embalada por Mutantes e músicas da carreira solo de Arnaldo. Tom Zé, Gilberto Gil, Sérgio Dias, Lobão, Devendra Banhart, Liminha, Dinho Leme e o próprio Arnaldo são alguns dos entrevistados que fazem a história renascer diante dos nossos olhos. Torna-se um documentário rico e valioso, tanto pelo registro histórico, como também pela falta de coisas parecidas e tão bem contadas.

Linearmente seguimos a vida de Arnaldo Baptista. Seu nascimento em 6 de julho de 1948 em São Paulo, seu primeiro contrabaixo elétrico, suas primeiras bandas de rock e sua paixão pela música. Desde cedo, também estudou piano, influenciado por sua mãe, pianista. Um rapaz de poucas palavras, tímido, mas que adorava tocar com seu irmão guitarrista Sérgio Dias. A criatividade e o rock’n’roll: duas palavras que o definiriam bem. Até chegar na sua mais fervorosa realização, ter uma base, ter uma banda, que literalmente foi sua família. Casou-se com Rita. Nasciam Os Mutantes, cresciam e tocavam no exterior, coisa que pouca banda nacional fizera. Tocavam em rede nacional as mais fervorosas canções lunáticas de amor, um amor verdadeiramente marcado por um romance e união na banda. O colorido dos Mutantes contagiava e Arnaldo sorri para nós nas imagens. Ele precisa disso, precisa estar no palco.

E assim Arnaldo segue sua carreira. Mesmo com o fim de seu casamento com Rita e o fim dos Mutantes. Um período realmente difícil na sua vida. Segue até hoje e é um mistério ainda, apesar de no filme termos elucidações sobre o assunto, o fato do termino do casamento, a briga e o fim do relacionamento de Rita e Arnaldo. Fatores musicais e pessoais se confrontaram. E foi triste. Como se tudo que era doce se acabou. Desentendimentos sempre há, mas aquilo era o fim, o começo do fim dos Mutantes, que ainda tentavam continuar sem Rita. Mas pouco se produziu.

Da parte de Rita, nada se ouve, nada se diz. Ela recusou-se a participar do filme e também da ultima formação dos Mutantes em 2006, quando Arnaldo e Sérgio voltaram a se reunir. No documentário, os depoimentos são emocionados, quando se trata do fim, Liminha conta que foi correndo chorar quando eles o anunciaram.



O psicodélico e o progressivo chegavam nas veias de Arnaldo nos anos 70. Mudou e sofreu com a separação. Chegou de vez então com sua música cada vez mais experimental. Mas não estava bem, afundou-se nas drogas. E sua criatividade e espontaneidade foram se misturando às denuncias de loucura e dependência. Foi uma fase que lhe afetou e lhe inspirou ao mesmo tempo. Seu grande disco, enquanto seguia carreira solo, “Loki” (1974), resume, de certa forma, todas suas angústias, valores, críticas e a incrível dor de ser. Do ser humano tão sensível, do grande músico que é e o que conseguiu transmitir para todos: que estamos todos a flor da pele, nem tão longe assim da loucura, apenas somos o que acreditamos, há beleza nisso tudo.

Arnaldo passou por tempos internado. Sua tentativa de suicídio, em 1982, quando se atirou da janela de um hospital, é retratada por ele como uma tentativa de liberdade. Ficou em coma por um tempo e só o amor lhe salvou. Lucinha Barbosa, que a princípio era uma fã, deu-lhe a paz. Casaram-se e hoje vivem em Juiz de Fora, Minas Gerais, num sítio. “Tudo isso foi um recomeço”, diz Arnaldo, alimentado pela esperança do seu novo amor. Além de compor, gravar e fazer turnê com a formação mais recente dos Mutantes, com Zélia Duncan, ele dedica seu tempo a pintar telas, sua mais nova terapia.

As cores, depoimentos, imagens e músicas de Arnaldo estão eternizadas neste longa-metragem. Na verdade, há uma lição de vida. Há a esperança e o reflexo de um ser puro que é Arnaldo. A obra aberta que constrói Paulo Henrique Fontenelle está para todos os corações jovens, esperançosos e felizes, como o de Arnaldo.


Info:

Título original:
Loki - Arnaldo Baptista
Gênero:
Documentário
Tempo:
120min
Site oficial:
http://canalbrasil.globo.com/loki/
Ano:
2009
Direção:
Paulo Henrique Fontenelle

Trailer:


quinta-feira, 9 de julho de 2009

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

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Por W. R. Boris


Se "Harry Potter e o Enigma do Príncipe" já era considerado por boa parte da crítica e do público um dos melhores livros da série ao lado de "O Prisioneiro de Azkaban", a adaptação do livro para o cinema chega bem próximo de conquistar tal proeza, mas ainda assim, não se iguala ao terceiro episódio da série cinematográfica. "O Enigma do Príncipe" tem suas surpresas e até um certo charme, inconstantemente conduzidos pelo diretor David Yates. Além do ótimo roteiro, o filme se sustenta pelas boas atuações do elenco adulto (Emma Watson continua insistindo nos seus exageros) e na impressionante qualidade dos efeitos especiais.



Como toda adaptação de uma obra literária exige, boa parte das subtramas presentes no livro foram deixadas de lado, principalmente no que concerne ao passado de Voldemort, longamente explorado no livro, no filme objetiva-se só o que tem peso para o entendimento da trama. O foco principal está centrado em um velho e misterioso livro de poções que Harry encontra. Enquanto o mundo da magia está em estado de sítio por conta do retorno de Lord Voldemort, dentro dos muros de Hogwarts bem protegidos por feitiços, o clima é outro. É claro que há a tensão e o medo, mas desta vez a atenção se volta para os relacionamentos entre os alunos, e talvez seja o filme/livro da série que mais se dedica a explorar esse lado pessoal dos personagens, deixando as explosões e aventuras mágicas um pouco de lado.

Antecipando em muito o que J. K. Rowling só fez quase no final da série de livros, o diretor David Yates escancara a paixão de Hermione por Rony enquanto se esquiva do garanhão Cormac McLaggen, os ciúmes que Harry sente por Gina, a falta de jeito de Rony diante do assédio de Lavender Brown (impulsionada por sua paixonite, passa o filme inteiro perseguindo o garoto), assim como Romilda Vance, determinada a fazer com que Harry beba uma poção do amor para se apaixonar por ela.




Mas não é só de relacionamentos amorosos que se constroem os personagens do filme, Rony finalmente consegue entrar para o time de Quadribol da Grifinória, mas diante do primeiro jogo contra a Sonserina se encontra o imenso abismo de sua insegurança. Assim como o novo professor de Poções, Horace Slughorn, recrutado pessoalmente por Harry e Dumbledore. O professor guarda um segredo valiosíssimo que se configura como a única esperança para conseguir derrotar Voldemort. Entretanto, este segredo envolve um sentimento de culpa tão grande para Slughorn, que revelando-o, segundo o próprio, perderia sua honra. E ao longo do filme, Harry trabalha seu relacionamento com o professor que adora colecionar alunos famosos, para conseguir fazer com que ele fale.

Em contrapartida, vemos todos os personagens juvenis amadurecidos de certa forma, Gina se mostra forte e atuante o tempo inteiro e principalmente Harry, que deixou de fazer um pouco o "bêbê chorão" dos filmes anteriores para se auto afirmar como o escolhido da profecia que determina que só ele poderá matar Voldemort. Sua determinação e mania de querer saber tudo o que está acontecendo é tão grande que se torna quase insuportável, na primeira parte do filme quando Draco o mantém imóvel através de um feitiço, quebra seu nariz e o deixa escondido sob a capa da invisibilidade, sentimos até um certo prazer diante da cena, como um castigo que ele viesse a merecer.

Draco Malfoy é outro que passa por uma profunda crise, após assumir o posto de Comensal da Morte deixado por seu pai, Voldemort o incumbe de uma tarefa quase impossível e é Snape que se propõe a ajudá-lo. Com uma presença muito mais ativa neste filme, Snape continua frio e duvidoso, até o fim do filme não fica claro se está lutando ao lado de Dumbledore ou do Lord das Trevas, o filme termina e a dúvida continua, mas as pistas estão lá. Voldemort, por sua vez, nem dá as caras neste filme, restando apenas seus fiéis Comensais e a onipresente Bellatriz Lestrange, interpretada de forma tresloucada por Helena Bonham Carter.




Todas as pontas muito bem acabadas e desenvolvidas, o roteiro é ágil e tem bastante fôlego, como na cena em que Hermione e Harry discutem quem convidar para acompanhá-los na festa promovida por Slughorn, quando Harry diz "uma pessoa legal" e corta imediatamente para Luna Lovegood em pé no corredor tão enfeitada como uma árvore de natal, esperando por Harry para ir à festa. Parece banal, mas na tela grande, funciona.

Porém, a falta de tato do diretor David Yates em alguns momentos é evidente. Desde o filme anterior "A Ordem da Fênix" (também dirigido por Yates), ficou aquela sensação de uma história bem contada, mas que falta alguma coisa. No filme anterior por exemplo, cenas como a rebelião em Hogwarts ou a batalha no Ministério da Magia, eram aguardas pelos fãs como alguns dos grandes momentos da série. Momentos épicos, dignos de um tratamento à altura, mas que Yates conseguiu tornar simples e passageiro. Em "O Enigma do Príncipe", David Yates volta a cometer os mesmos erros se mostrando como um diretor que não sabe filmar clímax.




A cena de abertura em que uma ponte em Londres é atacada por Comensais da Morte e vem abaixo, ou a cena em que a Toca (a casa da família Weasley) é destruída, acontecem de formas tão rápidas que não nos passam a dimensão do que aquilo representa. Poucos são os momentos que vislumbramos o terror que tomou conta do mundo mágico, o filme termina e não chegamos a digeri-lo porque o diretor não nos dá tempo para isso.

E olha que assim como nos últimos filmes da série, este também não tem um final feliz, mas sem dúvidas é o que termina de forma mais soturna. Deixando implícita a sensação de "preparação para o fim", o filme onde tudo se complica, se chega ao fundo do poço, para que tenha início um novo e último capítulo. Nunca um filme de Harry Potter foi tão negro.



Assista abaixo o último trailler do filme.